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El Dorado
Expedições do séc. XVI | Expedições dos sécs. XVII e XVIII | Expedições dos sécs. XIX e XX

Expedições do século XVI
Para corroborar a lenda do El Dorado os conquistadores espanhóis acreditavam que um grande grupo de incas tinha fugido para o interior quando da invasão do Peru, e que haviam carregado com eles muitos tesouros e fundado um novo grande império chamado de "Paititi".

A princípio os aventureiros e exploradores procuraram pelo El Dorado na Colômbia, a oeste da Cordilheira dos Andes: Em 1535 o espanhol Sebastián de Benalcázar, procurou pelo El Dorado no sudoeste da Colômbia. Também em 1535, Nikolaus Federmann, um explorador alemão, conduziu uma expedição em busca do El Dorado na Venezuela e na Colômbia. Em 1536 foi a vez do conquistador espanhol Gonzalo Jiménez de Quesada que também tentou encontrar o El Dorado na Colômbia, sem sucesso.

 
O ouro roubado dos Incas não era suficiente. Os invasores espanhóis queriam mais. Muito mais.

Mas com o passar do tempo, e os resultados negativos das primeiras expedições, os espanhóis estenderam sua cobiça para além da Cordilheira dos Andes, em direção ao leste, para onde apontavam os novos relatos dos índios peruanos. A partir disso, inúmeros viajantes, descreveriam a Amazônia e seus habitantes ao longo de diversas expedições em busca do famoso El Dorado.

Os irmãos Pizarro, após liderarem a destruição do império dos Astecas no México e do império dos Incas no Peru, roubando todo o ouro e a prata e matando seus líderes, ficaram impressionados com as lendas a respeito do El Dorado, um lugar de fabulosas riquezas que ficava às margens de um imenso lago.

Em 1541, Gonzalo Pizarro, então governador de Quito, no Equador, associa-se ao capitão Francisco de Orellana para, partindo da cordilheira dos Andes, seguir a pé acompanhando o trajeto dos rios formadores do rio Amazonas em busca do El Dorado, de novas terras para colonização e também da árvore da qual se produzia a canela. A expedição era composta de 220 espanhóis e cerca de 4.000 índios.

Após uma marcha infrutífera de 70 dias e diante da grande dificuldade em obter alimentos, Pizarro e Orellana decidiram separar-se. Pizarro retornou a Quito, enquanto Orellana resolveu prosseguir pelo grande rio de los Omáguas, hoje rio Napo.

Orellana era acompanhado de 55 soldados e dois frades, um dos quais, Frei Gaspar de Carvajal, relatou mais tarde toda a viagem em uma crônica que futuramente iria se tornar de grande importância histórica, embora entremeada de muitas alusões fantasiosas.

O frei relata que ambas as margens do rio eram densamente povoadas e que os grupos indígenas não tinham dificuldade em abastecê-los com comida, ainda que muitas vezes fosse preciso tomá-la à força, atacando aldeias e guerreando com os índios. Noutras vezes, apesar da boa acolhida que lhes proporcionaram os índios, oferecendo-lhes peixes e caças, conta a crônica que Orellana mandou incendiar muitas de suas cabanas, alvejando e enforcando aqueles que não fugiram.

Numa das aldeias onde pararam, Orellana foi informado por um indígena que tomasse cuidado com as coniupuiara, grandes senhoras, que os matariam se adentrassem suas terras. E quanto mais desciam o rio, mais fortes eram os indícios e as informações recebidas sobre essas mulheres temidas pelos indígenas.

Em outra aldeia encontram uma praça, com uma grande escultura em relevo, onde figurava, sob dois "leões", uma cidade murada com altíssimas torres. Tendo Orellana perguntado o significado dessa escultura, teria sido informado de que os habitantes dessa aldeia eram "súditos e tributários das Amazonas", a quem forneciam penas de pássaros. No centro da praça vêem um oratório que conservavam em homenagem a sua senhora, a governante das amazonas. Mais adiante, penetram no território das amazonas onde já eram esperados.

"Íamos desta maneira caminhando e procurando um lugar aprazível para folgar e celebrar a festa do bem-aventurado São João Batista, precursor de Cristo, e foi servindo Deus que dobrando uma ponta que o rio fazia, víssemos alvejando muitas e grandes aldeias ribeirinhas. Aqui demos de chofre na boa terra e senhorio das amazonas. Estavam estes povos já avisados e sabiam da nossa ida, e por isso nos vieram receber no caminho por água, mas não com boa intenção. Chegando perto, como o Capitão os quizesse trazer à paz, começando a falarlhes e a chamá-los, riram-se eles e faziam burla de nós; aproximavam-se e diziam que andássemos, pois ali abaixo nos esperavam, para prender-nos a todos e levar-nos às amazonas".

Ainda segundo Carvajal, os soldados travaram uma intensa luta contra esses índios e também com algumas das mulheres que teriam avistado de longe.

"Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado na cabeça. São muito membrudas e andam nuas em pelo, tapadas as suas vergonhas, com seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios. E em verdade houve uma destas mulheres que meteu um palmo de flecha por um dos bergantins, e as outras um pouco menos, de modo que os nossos bergantins pareciam porco espinho".

Em seu relato, Carvajal narra a seguir que embora abatessem vários índios que eram comandados pelas mulheres e mesmo algumas destas, os soldados se viram obrigados a fugir, tendo porém capturado um índio.

Este, mais tarde, ao ser interrogado, declarou pertencer a uma tribo cujo chefe, senhor de toda a área (o ataque tinha se dado na foz do Rio Nhamundá), era súdito das mulheres que residiam no interior "a sete jornadas da costa". Na qualidade de súditos, obedeciam e pagavam tributos às mulheres guerreiras, e que, como seu senhor Couynco estava a elas subordinado, vieram ajudá-lo na guerra contra os espanhóis. O indígena conhecia-lhes de perto o local de moradia, porque já havia ido várias vezes levar-lhes tributos em nome de seu Senhor.

Segundo o índio capturado, as amazonas não possuíam maridos e eram em grande número, conhecia cerca de 70 aldeias. Habitavam casas de pedra com portas, suas aldeias eram cercadas e ninguém passava sem pagar tributo. Copulavam com índios que capturavam em guerras que empreendiam com esse único propósito. Ao engravidar, descartavam-se desses homens sem fazer-lhes mal algum. Os filhos do sexo masculino, nascidos dessas relações, eram sacrificados ou enviados aos pais, enquanto as meninas eram educadas para a guerra. Entre essas mulheres havia uma, que reinava soberana sobre todas as demais, cujo nome era Conhorí. Em suas terras havia grandes riquezas em ouro e prata e cinco grandes templos dedicados ao sol, chamados caranaí, equipados com assoalhos e tetos pintados, além de inúmeros ídolos de ouro e prata com figuras femininas. Andavam com roupas finíssimas, fabricadas com a lã das "ovelhas peruanas".

"Seu trajar é formado por umas mantas apertadas dos peitos para baixo, o busto descoberto, e um como manto, atado adiante por uns cordões. Trazem os cabelos soltos até o chão e postas na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos".

O encontro e as escaramuças na foz do Rio Nhamundá (hoje limite entre os estados do Pará e do Amazonas) com as índias guerreiras e a descrição do índio prisioneiro, foi o bastante para que houvesse associação com as Amazonas da história das mulheres guerreiras que é conhecida da literatura greco-romana. E o rio, que o explorador espanhol Vicente Yáñez Pinzón havia denominado de Santa Maria de La Mar Dulce no final do século XV, passa a ser chamado Rio de las Amazonas e finalmente Rio Amazonas.

A ausência de aldeias indígenas em boa parte do trajeto de Orellana, e a falta de conhecimento em como se beneficiar dos recursos da floresta, fizeram com que os homens da expedição sofressem as agruras da fome, tendo que recorrer ao expediente, segundo relata o Frei Carvajal, de comer cintos e botas de couro depois de longamente fervidos com ervas.

Depois de 8 meses de viagens pelo grande rio, durante os quais ocorreram incidentes de toda ordem, a expedição de Orellana chegou ao mar, completando assim, pela primeira vez, o trajeto integral desde a cordilheira dos Andes até o oceano Atlântico e dando a conhecer ao mundo uma informação um tanto mística e pouco detalhada sobre a natureza da região.

Apesar de Orellana não encontrar o El Dorado e suas riquezas fabulosas, e ter de contentar-se com as árvores de canela que encontra logo no início da expedição, a narração feita por frei Gaspar de Carvajal, que voltou ao Peru ao fim da viagem, teve imensa repercussão na Europa e correu o mundo, alimentando ainda mais as lendas a respeito do El Dorado.

Também em 1541, o aventureiro alemão Philip von Hutten partindo de Coro, uma colônia alemã na costa da Venezuela, conduziu uma busca mal sucedida pelo El Dorado ao longo das cabeceiras do rio Amazonas, no território dos Omáguas. Ele encontrou um território densamente povoado, mas nenhum rei dourado.

Em 1560-1561 parte outra expedição, encomendada pelo vice-rei do Peru e comandada por Francisco de Ursua e Lope de Aguirre com o objetivo de procurar o lendário El Dorado. Ursua partiu do Huallaga com cerca de 370 soldados e dezenas de canoas e balsas, enquanto outra parte da tropa seguia pelas margens, acompanhados por mais de 500 índios. Ao que tudo indica Lope de Aguirre se aliou a um grupo de amotinados que, diante das dificuldades da expedição, desejavam regressar ao Peru, e assassinou Ursua, assumindo o comando da expedição. Como seria impossível regressar, desceram o curso do rio acompanhados por sucessivos assassinatos, pois Aguirre via opositores e traidores por todos os lados. Aparentemente foi a figura mais cruel e sanguinária de todos os conquistadores. Era conhecido como "El Tirano Aguirre" e seu emblema era uma bandeira negra com duas espadas cruzadas. Ao chegarem à foz do rio Amazonas, seguiram para as Antilhas e, assim como Orellana, aportaram na ilha Margarita, onde logo depois Aguirre foi assassinado por seus companheiros de motim.

Alguns anos depois, em 1569, Gonzalo Gimenez de Quesada, então com 70 anos, volta da Espanha e empreende uma nova busca ao mais que famoso El Dorado. Acompanhado por 500 homens, varre a região do rio Orinoco por 2 anos e volta com 25 sobreviventes e sem nenhum ouro. Dedica o resto de seus dias a escrever suas aventuras.

Em 1584, Antonio de Berrio, que havia se mudado da Europa para Bogotá em 1580, parte de barco do antigo reino de Granada, hoje Colômbia, pela bacia fluvial do rio Orinoco, em direção a Venezuela, em busca do El Dorado. Sua esposa, na condição de sobrinha de Gonzalo Jiménez de Quesada, fundador de Bogotá, havia "herdado" uma capitulação e o direito de governar o fabuloso El Dorado, só faltava encontrá-lo. Durante a viagem, Berrio colheu informações a respeito de tesouros fabulosos em uma cidade chamada Manoa, que estaria em um lago também chamado Manoa ou Parime. Berrio organizou um total de três expedições em busca do El Dorado e de Manoa e investiu quase toda a fortuna de sua esposa nessas empreitadas. Na sua segunda expedição montou um acampamento na região do rio Orinoco onde permaneceu três anos explorando os caminhos que poderiam conduzir a Manoa. Mudou-se para Trinidad onde foi governador entre 1592 e 1597 e onde fundou a cidade San José de Oruña o primeiro núcleo estável na ilha. Após três expedições, em 1584, 1585, e 1590, e após uma expedição adicional em 1593 feita por seu tenente, Domingo de Vera, Berrio concluiu que a cidade de Manoa estava perto das nascentes do rio Caroni. A crença de que a cidade de Manoa esta situada atrás das montanhas da Guiana ganhou um peso maior com as histórias de Juan Martinez, um sobrevivente espanhol de uma expedição anterior,que após viver dez anos entre os índios retornou a Margarita aproximadamente em 1586, reivindicando que havia estado na cidade dourada. Descreveu-a como na região da serra do Parima.

Em 1595 foi a vez do pirata inglês Walter Raleigh que era admirado pela rainha Elizabeth I e foi o excêntrico introdutor de alguns costumes ameríndios nas altas sociedades européias, como por exemplo o uso do cachimbo e do tabaco. No dia 07 de abril, logo depois de ter iniciado sua travessia pela embocadura do rio Orinoco, ataca e incendeia a cidade de San José de Oruña. Em seguida penetra pelo cânion Mánamo do delta do Orinoco e avança em direção a desembocadura do rio Caroni. Depois de diversas tentativas frustradas de encontrar o El Dorado, decide retornar a Inglaterra onde é acusado de conspirar contra o rei Jaime I, razão pela qual é confinado a treze anos de prisão. Durante este período escreve um livro sobre sua aventura, de grande repercussão em sua época, onde fala do descobrimento do vasto, rico e maravilhoso império da Guiana com um relato de uma poderosa e dourada cidade chamada Manoa, que os espanhóis chamam de El Dorado. Nestes fantasiosos escritos, Raleigh também fará menção às guerreiras amazonas: "Elas... são acompanhadas por homens, mas somente uma vez por ano, e por um período de um mês, que eu acredito seja em Abril. Nessa época, todos os reis da região se reúnem com as rainhas do Amazonas. Se depois disso concebem um filho, retornam este ao pai, se uma filha, elas a alimentam e criam para incrementar seu próprio reinado. Se nas guerras fazem qualquer prisioneiro, este será usado para acompanhá-las, mas no final certamente elas o matarão. Mas isso de cortarem fora seu seio direito eu não comprovei se era verdade". Depois de ser libertado, empreende sua segunda viagem em busca do desejado El Dorado, tendo esta segunda exploração a mesma sorte que a primeira. Retornando a Inglaterra foi novamente acusado dos motivos que o mantiveram na prisão, mas desta vez foi condenado a morte. Quando o carrasco lhe pediu que fechasse os olhos para que não visse a sombra do machado baixando para cortar seu pescoço, Raleigh lhe respondeu: "Se não tenho medo do machado, porque haverei de temer sua sombra?".

Essas expedições suscitaram muitas especulações a respeito de riquezas e de relatos lendários na Amazônia fazendo com que mais exploradores de diversas nacionalidades se laçassem, nos séculos seguintes, à exploração do norte da América do Sul, entre os rios Orinoco e Amazonas, motivados pelas riquezas do El Dorado.

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